O GoShop nasceu como uma comunidade de parceiros e tem vindo a afirmar-se como um dos pilares centrais da estratégia da Romafe, num modelo que aposta na colaboração, na proximidade e na criação de valor partilhado.
É neste contexto que o administrador da empresa para a área automóvel e responsável pelo projeto, José Carvalho, enquadra a evolução de uma iniciativa que, hoje, vai muito para além da sua origem inicial.
Ao longo da conversa, o responsável abordou os desafios que ainda persistem, a importância do valor partilhado, a necessidade de mudar alguns paradigmas de negócio e a forma como a diversidade dos parceiros se transformou numa das maiores forças da comunidade.
Sem revelar todos os detalhes, deixou claro que estão a caminho novidades importantes, referindo a GoParts como um passo relevante na estratégia do grupo.
Depois da recente presença, em grande estilo diga-se, na expoMECÂNICA 2026 e da apresentação pública da GoParts, durante a feira, José Carvalho assegura ao Check-up que esta é uma plataforma coerente dentro da evolução da comunidade.
Por outras palavras, segundo o responsável, o GoShop continua a afirmar-se como um modelo diferenciador, capaz de unir empresas distintas em torno de uma visão comum rumo ao futuro do aftermarket.
O GoShop nasceu como uma comunidade de parceiros. Hoje, sente que já é mais do que isso — talvez um modelo de negócio alternativo dentro do aftermarket?
Sim, é uma forma diferente de trabalharmos com os parceiros. O objetivo foi sempre criar envolvimento e conseguir levar a nossa mensagem e aquilo que é o nosso projeto a todos os cantos do país.
O caminho tem sido feito devagar, mas com passos seguros, com experiências que, por vezes, correm menos bem e outras que correm melhor.
No global, estes anos têm sido francamente positivos para aquilo que foi o projeto inicial do GoShop. Mas teremos novidades no segundo semestre deste ano.
Estamos a falar da GoParts, apresentada na expoMECÂNICA 2026…
Sim. Dentro daquilo que tem sido o nosso percurso, tal como na edição de 2024 apresentámos o GoRepair, este ano anunciámos, na expoMECÂNICA, a GoParts.
É uma forma de apoiarmos os nossos parceiros e de eles aumentarem o seu negócio, promovendo a fidelização dos seus próprios clientes. É uma ferramenta para eles. Um projeto que se dirige ao cliente final, mas sempre através dos nossos parceiros.
Trata-se de uma loja online em que todos os parceiros estão presentes. Será mais uma oportunidade para alargar a nossa base de negócio, mas respeitando sempre a hierarquia, através dos nossos parceiros.
E quando estará operacional?
O objetivo é lançar a plataforma até final deste ano. A parte mais difícil está feita: articulá-la entre todos os parceiros. Ou seja, a forma como cada um deles vai apresentar os seus produtos.
Agora estamos na fase de desenvolvimento, que consideramos a mais fácil. Acreditamos que será no último trimestre deste ano ou no primeiro de 2027.
Voltando ao GoShop… O que é que ainda não está a funcionar e precisa de ser corrigido na sua perspetiva?
A perspetiva de comunidade. Ainda existe alguma preocupação excessiva com o preço e com as alternativas que vão surgindo no mercado.
“O objetivo é lançar a GoParts até final deste ano. A parte mais difícil está feita: articulá-la entre todos os parceiros. Ou seja, a forma como cada um deles vai apresentar os seus produtos”
Temos de perceber que não é apenas no preço, nem apenas naquilo que a Romafe tem para oferecer em termos de negócio, que as coisas acontecem. Esse continua a ser o principal foco.
Ainda existe alguma falta de entendimento por parte de alguns parceiros e de algumas empresas, que poderiam ir mais longe do que aquilo que vão atualmente.
Continuam demasiado focadas num modelo de negócio que, na minha opinião, tem os dias contados. Se continuarem dessa forma, não sei qual será o futuro dessas empresas.
A Romafe fala muito em “valor partilhado”. Na prática, onde é que esse valor ainda não chega de forma consistente aos parceiros?
Na esmagadora maioria dos parceiros, esse valor já existe. Também é verdade que a nossa inexperiência inicial contribuiu para algumas dificuldades. Hoje, temos uma experiência diferente e uma perspetiva mais clara daquilo que é um parceiro ideal.
Sentimos que as empresas mais pequenas, que têm ambição de crescimento a curto e médio prazos, compreendem mais facilmente esta visão do que algumas estruturas maiores.
Existe uma diferença entre comprar melhor e ganhar dinheiro. É precisamente essa mudança de paradigma que queremos continuar a promover.
Como é que se mantém uma comunidade tão coesa quando os parceiros têm realidades tão diferentes entre si?
Talvez seja precisamente essa heterogeneidade a grande vantagem. Há parceiros que vão beber da experiência de outros que estão no mercado há mais tempo e, ao mesmo tempo, aqueles que têm mais experiência também conseguem retirar ensinamentos e novas perspetivas dos restantes.
Quando surgem desafios no mercado, é mais fácil trabalhar em conjunto do que individualmente. Situações como as que vivemos atualmente, com guerras e instabilidade mundial, demonstram isso mesmo. As experiências de cada parceiro podem ser partilhadas e transformadas em conhecimento útil para todos.
O GoShop depende mais de tecnologia ou de confiança humana entre os intervenientes?
A confiança humana continua a ser a base de tudo. A tecnologia é uma ferramenta fundamental para melhorar processos, comunicação e eficiência, mas aquilo que sustenta uma comunidade é a confiança entre as pessoas e a capacidade de trabalharem com objetivos comuns. Partilha e compromisso. São sempre esses os valores.
Marcas como a Kamoka mudam o equilíbrio dentro da comunidade ou pode criar novas tensões?
Traz mais oportunidades do que tensões. É uma marca que está dentro de um grupo restrito de casas de peças. Obviamente que não podemos garantir a exclusividade porque a própria marca não o permite.
A nossa lógica também foi sempre a de nunca criar essas tensões quando escolhemos os parceiros. Será sempre uma mais-valia. Continuaremos a apostar neste tipo de marcas, que acrescentam sempre valor ao negócio.
O que é mais difícil: ganhar um novo parceiro para o GoShop ou manter os atuais alinhados com a evolução do projeto?
São desafios diferentes. Manter um parceiro é estar permanentemente a criar e a imaginar coisas para que as pessoas se sintam cada vez mais envolvidas. Trazer um novo parceiro tem o desafio de tentar demonstrar quais são as vantagens e o que vai acrescentar ao negócio.
O GoRepair e a digitalização aproximam-vos das oficinas. Estão a tentar ser também uma espécie de “ecossistema técnico”, não apenas de distribuição?
A Romafe não tem uma ligação à oficina, mas sim às casas de peças. Isso é demonstrado através do GoShop. Essa ligação surge apenas porque há uma necessidade dos nossos parceiros de criarem, eles próprios, esse ecossistema técnico.
A nossa intervenção é sermos facilitadores e, num espírito de partilha, conseguirmos chegar a esse ecossistema técnico. Estamos a caminhar para isso, passo a passo, mas ainda temos um longo caminho pela frente.
O cliente final do aftermarket percebe o que é o GoShop ou isso ainda é um trabalho invisível para o mercado?
Ao nível dos players do aftermarket acho que já existe conhecimento. Em relação ao cliente final, essa é a próxima fase. Ou seja, até aqui tínhamos de consolidar a comunidade e os parceiros.
“Manter um parceiro é estar sempre a criar e a imaginar coisas para que as pessoas se sintam cada vez mais envolvidas. Trazer um novo parceiro tem o desafio de tentar demonstrar as vantagens e o que vai acrescentar ao negócio”
A partir de agora, através de algumas ações de marketing e de alguma comunicação mais direcionada ao cliente final, vamos começar a levar o nome GoShop mais longe. Nessa altura, poderemos então dizer que o nome superou o circuito fechado do aftermarket.
Há uma fronteira clara entre Romafe empresa e GoShop comunidade, ou essa fronteira já deixou de fazer sentido?
Essa fronteira já deixou, de facto, de fazer sentido. O GoShop vai evoluir para alguma coisa diferente daquilo que é hoje. Poderemos consolidar estas parcerias de uma outra forma. Tal como em tempos idos a SKF se “misturou” com a Romafe, talvez o GoShop se confunda com a Romafe e a Romafe com o GoShop.
Se um parceiro, hoje, quiser entrar no GoShop, o que precisa de ter para além de volume de negócio?
Confiança, partilha e compromisso. São esses os valores. Esta é a essência. Quando fugimos disto, fugimos da nossa própria essência e do que idealizámos para este projeto.
O GoShop é um modelo fechado, em consolidação, ou está ainda numa fase experimental de evolução permanente?
Modelos fechados vão contra um princípio pessoal. Sou muito avesso a tudo o que é fechado. Não sou apologista da velha máxima futebolística: “Em equipa que ganha, não se mexe”.
Acho que se deve mexer precisamente por estar a ganhar. Estes devem ser os princípios que norteiam o GoShop. Devemos sempre ver o GoShop como um projeto aberto e que deve beber ideias de todos os lados.
E, acima de tudo, acho que devemos ter a humildade de perceber que, fora do nosso ecossistema ou da nossa realidade, há sempre alguém que também sabe fazer e que faz bem. E nós temos de ir aprendendo com eles. Tal como eles também, seguramente, vão aprendendo connosco.
Em entrevista ao Check-up, em tempos, disse que o GoShop já tinha apanhado o comboio do aftermarket automóvel. Já tem lugar sentado?
(Risos). Acho que já conseguimos estar na última carruagem. Apesar de ela ir cheia, já temos ali um lugarzinho reservado. Mas é um negócio que tem sofrido tanta evolução nos últimos anos. E o facto de termos entrado, com algumas mudanças, serviu para agitar o mercado.
Podemos não estar totalmente certos, mas estou convicto de que não estamos totalmente errados. O comboio lá está e não queremos que ninguém saia na próxima estação. Mas nós queremos chegar mais à frente.