Há automóveis que nascem para cumprir uma função. E há outros que acabam por representar uma época. O Renault Twingo pertence, claramente, ao segundo grupo.
Quando surgiu, nos idos de 1993, não prometia potência, luxo ou estatuto. Nada disso. Prometia algo muito mais difícil de alcançar: simpatia do público mais jovem.
Era quase impossível olhar para aquele pequeno modelo de linhas arredondadas sem esboçar um sorriso. Tinha uma personalidade própria numa época em que muitos citadinos pareciam desenhados a régua e esquadro.
Cerca de 33 anos depois, a Renault decidiu recuperar esse espírito para uma nova geração. Agora elétrica, naturalmente. Mas sem perder aquilo que sempre distinguiu o Twingo: a capacidade de transformar uma deslocação banal numa experiência descontraída e com muitos olhares depositados quando passa.
Parecia loucura, mas…
Foi isso que o Check-up pôde comprovar na passada quarta-feira, dia 18 de junho, num dia que começou no Lagoas Park, quartel-general da marca, e terminou no coração dos Santos Populares, em Santos, depois de uma viagem até à Aldeia do Meco, entre estradas secundárias, peixe fresco e muitas conversas sobre um dos regressos mais aguardados da Renault, já depois do 4 e do 5, outros dois modelos que despertam emoções e nostalgia.
Pode afirmar-se que o novo Twingo E-Tech não chega para substituir um modelo. Chega para recuperar um conceito de automóvel que parecia condenado à extinção.
A história do Twingo sempre foi feita de escolhas pouco convencionais. Poucos recordam que a Renault chegou a ponderar comercializá-lo inicialmente apenas numa cor.
Um verde vivo, o famoso “Vert Coriandre”, que acabaria por se transformar numa das imagens de marca do modelo. Tudo parecia uma loucura: desde esta ideia (depois abandonada) de uma cor única, como as próprias linhas que pareciam as de um sapo bem disposto.
Mas também parecia uma loucura lançar um automóvel sem a agressividade estética típica da época, com um painel digital ao centro do tablier, um interior que lembrava uma pequena sala de estar e um nome inventado a partir de três danças: Twist, Swing e Tango. A verdade é que resultou. Alguém contesta?
Mais de 2,4 milhões de unidades da primeira geração encontraram comprador e o Twingo transformou-se num dos maiores fenómenos da indústria automóvel europeia.
Elétrico, sem complexos
O novo Twingo E-Tech procura precisamente recuperar essa capacidade de ser diferente. A Renault não quis transformar o Twingo num exercício tecnológico distante da realidade. Pelo contrário.
Com 3,79 metros de comprimento, continua compacto, fácil de estacionar e perfeitamente adaptado à vida urbana. O motor elétrico de 82 cv pode não impressionar no papel, mas faz exatamente aquilo que se espera dele: responder com rapidez, suavidade e eficiência.
Com apenas 1.200 kg, o Twingo sente-se leve. Muito leve. Nos percursos urbanos e suburbanos realizados durante a apresentação, a sensação dominante foi precisamente essa: agilidade e suavidade de movimentos.
A bateria, de 27,5 kWh, permite uma autonomia que chega aos 263 km WLTP, mais do que suficiente para o tipo de utilização que define este automóvel. A função One Pedal, os vários níveis de regeneração e a gestão inteligente da energia ajudam a retirar ainda mais partido de cada carga.
E há uma boa notícia para quem continua a olhar para os elétricos com desconfiança: o preço. A Renault anuncia um valor de entrada de €19.490, tornando-o num dos automóveis elétricos mais acessíveis do mercado europeu.
Pequeno e inteligente
O percurso até ao Meco permitiu descobrir outro dos trunfos históricos do Twingo: o espaço. Apesar das dimensões compactas, o interior continua a desafiar a lógica. Os bancos traseiros deslizantes independentes são de série em todas as versões. Os encostos rebatem individualmente e a capacidade de carga pode ultrapassar os 1.000 litros.
Uma solução simples, mas extremamente eficaz. É um daqueles automóveis que parecem sempre maiores depois de abrirmos as portas. Talvez por isso o velho slogan não tenha perdido atualidade: maior por dentro do que por fora. E tecnologicamente evoluído.
Peixes do Meco, santos de Lisboa
Depois da pausa para almoço junto ao mar, o regresso a Lisboa serviu para perceber outra coisa. O Twingo continua a ser um automóvel profundamente urbano.
Não apenas porque foi pensado para a cidade, mas porque parece compreender o seu ritmo. As ruas estreitas, os estacionamentos improváveis, as manobras apertadas e o trânsito constante continuam a ser o seu habitat natural.
Talvez por isso tenha feito tanto sentido terminar a apresentação no arraial “Santos em Santos”, onde a Renault foi parceira da Casa do SAPO powered by Renault Twingo. Entre música, animação, jogos e milhares de pessoas a circular pelo recinto, o novo Twingo parecia perfeitamente integrado naquele ambiente descontraído.
A marca aproveitou a ocasião para desafiar os visitantes com iniciativas como o “Quantos SAPOS estão no Twingo?” ou o divertido “Escape Twingo”, experiências criadas para mostrar o automóvel de uma forma menos convencional. Uma estratégia coerente com a própria personalidade do modelo. Porque o Twingo sempre foi mais próximo da diversão do que da formalidade.
O ambiente mudou por alguns minutos. Na Casa do SAPO, centenas de pessoas acompanharam a estreia de Portugal frente ao Congo no Mundial de Futebol. O entusiasmo era grande. O resultado final nem por isso. O empate a um golo acabou por ser o momento menos conseguido de um dia que tinha corrido particularmente bem para a Renault.
Tudo o resto encaixou na perfeição. O percurso, a cidade, os Santos, o ambiente e, sobretudo, um modelo que regressa ao mercado sem tentar ser aquilo que não é.
Filho pródigo
Durante anos, o segmento A foi uma das portas de entrada mais importantes para o automóvel na Europa. Hoje, representa menos de 5% das vendas. Muitos fabricantes abandonaram-no. Outros deixaram simplesmente de acreditar nele. Ora, a Renault fez precisamente o contrário.
Olhou para um dos nomes mais carismáticos da sua história e decidiu trazê-lo de volta. Elétrico, conectado, mais seguro e tecnologicamente muito mais avançado. Mas mantendo intacta a filosofia que o tornou especial há mais de 30 anos.
No final do dia, essa talvez seja a maior qualidade do novo Twingo E-Tech. Num mercado onde quase todos os automóveis parecem querer crescer, ele continua a saber exatamente porque nasceu pequeno.
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