Há 100 anos que a OSRAM ilumina o caminho da indústria automóvel. Mas, num setor em permanente transformação, ficar parado nunca foi uma opção. Da evolução das lâmpadas à chegada das soluções LED, dos carregadores de bateria às escovas limpa para-brisas, a marca tem vindo a alargar horizontes e a encontrar novas formas de acompanhar as necessidades dos automobilistas.
Uma evolução que não se limita à iluminação: passa, também, pela inovação, pela segurança e pela capacidade de antecipar o futuro da mobilidade.
Em conversa com o Check-up, João Casinhas, Head of Sales AM Portugal da ams OSRAM, revisita alguns dos momentos marcantes da história da empresa, analisa as diferenças entre os mercados português e espanhol e explica como a eletrificação está a abrir novas oportunidades.
Uma entrevista sobre uma marca que continua a fazer da luz a sua referência, mas que sabe que, para iluminar o futuro, também é preciso olhar para além dela.
A OSRAM é, hoje, muito mais do que uma marca especialista em iluminação automóvel. A que se deveu o aumento exponencial do portefólio de produtos da empresa ao longo dos anos?
Começámos, há cerca de 100 anos, com uma lâmpada automóvel, a BILUX. Já lá vão muitos anos e essa lâmpada já não existe. Ao longo do tempo, lançámos as H4, depois as H7 e fomos diversificando, apostando, também, noutros tipos de negócio para além das lâmpadas.
O negócio das lâmpadas tradicionais, por si só, não diria que tem os dias contados, mas a verdade é que os carros novos já vêm equipados com LED, com faróis completos full LED. Isto obriga a OSRAM a adaptar-se às novas realidades e a procurar outros tipos de produtos que possa comercializar.
Mas podemos assumir que a iluminação ainda ocupa uma fatia maior do negócio da OSRAM?
Sim. Entre 75 e 80% da faturação total continua a corresponder à iluminação automóvel. Ou seja, a lâmpada, seja tradicional ou LED, continua a representar a maior fatia do negócio da OSRAM. Ainda assim, todos os outros produtos têm vindo a ganhar importância.

Estamos, também, a afirmar-nos como um novo player nestes segmentos. Penso que o nome OSRAM transmite confiança ao consumidor final e ao profissional. Tentamos, de alguma forma, proporcionar uma oferta mais abrangente ao cliente.
Que momentos-chave destacarias dos 100 anos da OSRAM Automotive, que se celebraram em 2025?
Há 100 anos, lançámos a nossa primeira lâmpada. Hoje, temos um portefólio enorme, não só de lâmpadas, mas, também, de outras soluções. Houve vários marcos históricos, como o lançamento das primeiras lâmpadas de halogéneo H7, que ainda hoje continuam a ser muito vendidas em Portugal, na Europa e no mundo.
As primeiras lâmpadas retrofit LED também representaram um marco importante, tal como o Xénon, que trouxe uma enorme evolução relativamente ao halogéneo.
Inicialmente, só os carros de gama alta tinham Xénon. Mais tarde, esta tecnologia tornou-se mais comum. Foi uma mudança significativa: passámos das lâmpadas de filamento para uma tecnologia a gás, completamente diferente e com uma qualidade de iluminação muito superior à tradicional.
São vários os marcos, embora não tenha assistido a todos (risos). As coisas, hoje, acontecem muito mais depressa. Nos quase 27 anos que estou na OSRAM, assisti a muitas novidades, alterações e momentos históricos na empresa.
Antigamente, lançava-se uma lâmpada e ela durava 20 anos. Era sempre a mesma. Hoje, já não é assim. Temos de ter a última novidade, a melhor solução, aquela que oferece mais performance. É isso que o consumidor procura numa marca.
Lâmpadas para automóveis, arrancadores e carregadores de baterias, compressores de pneus, cabos de carregamento para veículos elétricos e híbridos plug-in, luzes de inspeção, luzes para bicicletas, escovas limpa para-brisas… Quantos produtos disponibiliza a OSRAM atualmente?
A OSRAM tem três pilares de negócio no aftermarket. O primeiro, é o “tradicional”, que inclui as lâmpadas de halogéneo e Xénon, com cerca de 300 referências.

Depois, temos a área dos LED, que inclui barras de iluminação, luzes de trabalho, lâmpadas de LED, pirilampos e a V16, estas últimas muito procuradas em Espanha.
Por fim, temos o cuidado e equipamento automóvel, ou CEA, o pilar mais recente da OSRAM, que conta com cerca de 150 referências. São algumas para decorar (risos).
É expectável que o portefólio de soluções possa crescer ou a estratégia passa por atualizar as gamas já existentes?
Temos muita rotatividade: sai um produto, entra outro. Por exemplo, as Night Breaker, um dos produtos mais vendidos pela OSRAM, destacam-se pela sua performance e pela quantidade de luz que proporcionam.
Tudo começou com uma Night Breaker 90, que, na altura, tinha um verdadeiro fator “UAU!”. Não era habitual. Passámos, depois, para 100, 110, 150 e já vamos nos 220% mais brilho em comparação com o padrão mínimo legal. É sempre mais luz. Temos esta preocupação de melhorar, continuamente, as gamas existentes.
Paralelamente, temos novos produtos que, há uns anos, dificilmente imaginaríamos ver comercializados pela OSRAM, como os carregadores de baterias e, mais recentemente, as escovas.
Mas a empresa tem de reinventar-se e adaptar-se à eletrificação e a um mercado que não para. O facto de alguns produtos não terem o “ADN tradicional” da OSRAM acaba por ser, também, uma forma de aumentar a nossa visibilidade e de proporcionar melhorias ao consumidor final e ao condutor, facilitando-lhes, de alguma forma, a vida.
Na Automechanika Frankfurt 2026, a OSRAM apresentou uma novidade absoluta: as escovas limpa para-brisas, designadas BETTERSIGHT WIPERblades. O portefólio de produtos relacionados com visibilidade e segurança fica, agora, completo?
Olhando para o nosso mercado, penso que, neste momento, já temos uma gama bastante importante. Não sei qual será a estratégia para o futuro, mas, em Portugal, temos um portefólio bastante completo.
“O mercado automóvel está a evoluir a um ritmo nunca antes visto e temos de aproveitar as oportunidades que surgem”
Há sempre produtos que podem não se adaptar bem a determinados países, mas que funcionam noutros. Fizemos, recentemente, um lançamento que, infelizmente, não vendeu sequer uma unidade em Portugal: o ICEscraper, um produto elétrico para limpar o gelo dos vidros, acompanhado de outra solução para remover o gelo das portas. Mas, como cá não temos neve, é complicado. Só se arranjarmos um parceiro na Covilhã…
É precisamente esta a particularidade: temos muitos produtos mas nem todos se adaptam a todos os mercados. É o caso das câmaras de bordo. Era um produto que vendíamos muito, associado à visibilidade e à segurança, mas que, em Portugal, não tem expressão devido às questões relacionadas com a proteção de dados e a utilização de câmaras de filmar.
Que análise fazes do mercado da iluminação automóvel em Portugal e Espanha? Existem muitas diferenças entre os dois países?
Antes de mais, devo dizer que, desde 1 de agosto deste ano, que já não sou responsável por Espanha. Temos um novo colega e havia essa necessidade de ter alguém presente no mercado espanhol.
Durante os últimos três anos e meio tive essa experiência, além do conhecimento que já tinha do mercado português. São, efetivamente, países diferentes, com mercados e estratégias muito distintos.
A grande diferença que notamos está na fidelidade e na relação de longo prazo que temos com os nossos parceiros em Portugal.
Não diria que somos um país particularmente “marquista”, mas as pessoas tendem a procurar a segurança da marca.





Ponderam a compra. Pensam: “Vou comprar isto. A diferença são 20%, mas, numa lâmpada, por vezes, estamos a falar de apenas um euro”. O reconhecimento da marca e a confiança acabam por ser fatores decisivos na fidelização.
Em Espanha, a decisão é um pouco mais orientada pelo preço. Há, também, uma presença muito maior de marcas próprias e centenas de marcas diferentes de lâmpadas. Claro que em Portugal também se olha para o preço, e deve olhar-se, mas a decisão acaba por ser mais ponderada.
Pode dizer-se que o cliente português é mais fiel à OSRAM do que o espanhol?
O trabalho desenvolvido em Portugal também foi diferente. Cá, sempre apostámos mais no cliente profissional.
Quando um profissional instala um produto, é porque tem confiança nele. Sabe que, duas semanas depois, não terá o cliente à porta a reclamar de problemas.
Este foi sempre o nosso foco, desde que me lembro da empresa: o profissional e os especialistas. Também existe procura por parte do consumidor final nas grandes superfícies e nos fast fits.
Quais as famílias de produtos que os automobilistas mais procuram na OSRAM? E no caso dos clientes profissionais?
As lâmpadas, claramente. Estão muito à frente das restantes famílias de produtos. Até porque uma grande parte dos carros que saem de fábrica continua a utilizar as nossas lâmpadas.

Apesar de vermos cada vez mais veículos com iluminação full LED, em 2026 quase 80% dos carros produzidos mundialmente continuam a utilizar halogéneo. Olhamos muito para os carros que circulam na Europa, mas o mundo não é só a Europa. Há outros países onde o halogéneo continua a ser muito utilizado.
Portanto, as lâmpadas continuam a liderar. A seguir, dentro do pilar de cuidado e equipamento automóvel, destaca-se a área que designamos de Battery Care, ou seja, produtos para manutenção e cuidado da bateria. Estamos a vender muito bem esta categoria e lançámos, recentemente, produtos muito bons, a preços bastante competitivos.
A gama de boosters também faz parte do Battery Care. Para mim, é esta a categoria que mais se destaca a seguir às lâmpadas: os arrancadores e carregadores de bateria.
Qualquer pessoa que tenha um carro em casa pode beneficiar destas soluções. Basta pensar num veículo que só circula ao fim de semana ou que passa muito tempo parado. No inverno, as baterias sofrem bastante, sobretudo quando os carros ficam numa garagem durante longos períodos.
Em vez de andar com cabos no carro e depender de outra pessoa para fazer uma ligação, basta ter um booster ou arrancador. Se estiveres sozinho, não precisas de procurar outro veículo para ligar os cabos.
Quando começámos a desenvolver esta gama, pensei que as lanternas poderiam ser o produto mais vendido a seguir às lâmpadas. Mas não. Foi a gama Battery Care, com arrancadores e carregadores de bateria.
Estamos, também, a evoluir bastante nesta área. Começámos com uma primeira gama e percebemos que o mercado precisava de soluções melhores. Lançámos, agora, uma gama mais avançada, com funcionalidades como o teste do alternador e a reparação da bateria, algo que nem todos os carregadores de marcas premium disponibilizam.

As distinções alcançadas nos German Innovation Awards em 2025 e 2026 são exemplos elucidativos da força inovadora contínua da OSRAM?
Sim. Temos muito orgulho nestas distinções, porque reconhecem um pouco o trabalho desenvolvido ao longo de todo o ano. A inovação, a melhoria contínua e a investigação demonstram o esforço e o investimento da OSRAM nesta área.
Uma lâmpada é uma lâmpada? A verdade é que não é bem assim. Procuramos que um produto não seja apenas mais um. Queremos que ofereça algo mais e que seja a melhor solução possível dentro da sua categoria, seja através de maior performance, de mais opções ou de novas funcionalidades.
Tentamos sempre acrescentar valor. Esse é o conceito e o objetivo: pensar fora da caixa e dar um bocadinho mais de tempero ao produto.
Comercializam a luz de aviso LEDguardian ROAD FLARE Signal V16 IoT, que tem uma garantia de 12 anos e que é obrigatória em Espanha desde 1 de janeiro de 2026. Como estamos em Portugal?
Em Portugal, não estamos (risos). Só em Espanha é que é obrigatória. Sei que já se fala bastante deste produto em Portugal, porque promove a segurança rodoviária, mas…
E têm concorrência…
Sim, claro. Há sempre concorrência, e, isso, é saudável. Obriga-nos a melhorar. Mas em Portugal tem-se falado deste produto e acho que se devia falar ainda mais. Não se trata apenas de mais um produto que queremos comercializar. É muito mais do que isso.
Vou dar um exemplo. Vais na autoestrada, à noite, e tens uma avaria no carro. Tens de encostar à berma, sair do veículo, numa via onde os carros circulam, no mínimo, a 120 km/h, e ir à bagageira buscar o triângulo, ficando de costas para o trânsito. Depois, tens de percorrer 100 ou 150 metros para colocá-lo, às escuras e regressas novamente de costas para o trânsito.
“Quando um profissional instala um produto, é porque tem confiança nele”
O facto de este produto ser obrigatório em Espanha representa um passo enorme em termos de segurança rodoviária. Espero que Portugal e os outros países europeus sigam o mesmo caminho.
Voltemos ao cenário de uma avaria na autoestrada, mas, agora, com este dispositivo. Abres o porta-luvas, colocas a luz em cima do tejadilho e tens um sinal luminoso, um pirilampo, visível a muitos metros de distância. Os outros condutores percebem imediatamente que há uma situação de perigo, abrandam e desviam-se.
O produto tem ainda outra característica: envia um sinal para a autoridade competente e para plataformas como o Google Maps e o Waze, dando indicação de que existe um obstáculo na estrada. É uma mais-valia muito importante em termos de segurança rodoviária.
Que desafios enfrenta a OSRAM com a eletrificação cada vez maior do automóvel (se é que enfrenta)?
É sempre uma preocupação, porque estamos a sair da nossa zona de conforto. Mas a realidade é que temos de adaptar-nos. O mercado está a evoluir a um ritmo nunca antes visto e temos de aproveitar as oportunidades que surgem.
Recordo uma apresentação que aconteceu há cerca de 10 anos, numa feira, em que uma empresa colocou um Tesla em exposição e mostrou todo o stock de produtos que podia comercializar para aquele modelo. Eram apenas três ou quatro: correias, filtros, escovas e, julgo eu, pneus.
Há produtos que vão continuar a ser necessários, embora não sejam todos os mesmos. Mas também vão surgir outros. A OSRAM sempre teve uma forte componente eletrónica. Quem sabe se, amanhã, não poderá lançar novos produtos eletrónicos para veículos elétricos?
É uma questão de aproveitar as oportunidades. Não podemos alterar nem parar com as mãos o que está a acontecer.

A substituição de lâmpadas aos pares tem sido uma das muitas recomendações da OSRAM. Sentem que estão a ganhar esta “batalha” ou ainda existe muita resiliência por parte dos automobilistas em interiorizar esta questão?
Recomendamos a substituição aos pares porque, normalmente, quando uma lâmpada funde, a outra não deverá demorar muito a fundir também. Os carros não podem circular apenas com uma lâmpada a funcionar.
Uma pode durar mais tempo do que a outra, mas, mais cedo ou mais tarde, também vai deixar de funcionar. Por vezes, as pessoas dizem que só querem substituir uma lâmpada por uma questão monetária. Cada um sabe de si.
Mas há outro aspeto que importa considerar: nos carros mais recentes, sobretudo a partir do ano 2000, a substituição de uma lâmpada pode ser um trabalho bastante complicado. Em muitos casos, é necessário desmontar o para-choques ou praticamente toda a frente do veículo para mudar uma única lâmpada.
Na maioria das situações, não compensa. Imaginemos que uma lâmpada custa €10, mas a mão de obra custa €100. Para o cliente, acaba por ser mais vantajoso substituir logo as duas. Caso contrário, pouco tempo depois poderá ter de voltar a pagar mão de obra para substituir a outra.
Além disso, ao longo da sua vida útil, as lâmpadas vão perdendo eficiência. Começam a produzir menos luz e a ficar mais amareladas. No caso das Xénon, acontece o contrário: vão ficando cada vez mais azuladas e acabam praticamente por deixar de iluminar.
É, também, uma campanha de sensibilização que fazemos para que as pessoas se preparem para as noites de inverno, que são mais longas, e garantam que têm uma iluminação adequada.
Que grau de importância tem a responsabilidade social para a OSRAM?
É um tema de grande importância para a OSRAM. Procuramos integrar sempre o princípio da sustentabilidade, respeitar as questões ambientais e contribuir para uma sociedade melhor.
Procuramos melhorar, também, os nossos produtos e a forma como os fabricamos. Há cerca de dois anos, adotámos o ecopacking, deixando de utilizar plástico nas embalagens. Esta mudança teve um impacto bastante significativo. Tentamos sempre fazer a nossa parte enquanto fabricantes.
