Na Soc. Com. C. Santos, o dia começara cedo. Pelas 8h30 já era possível ouvir conversas entre convivas.
— Sempre conseguiste vir este ano?
— Sim, sim. Gosto de fazer quilómetros com o meu “velhote”.
A conversa acontece sem cerimónia, junto aos carros, enquanto a manhã ganha movimento na Maia.
O “velhote” é um Mercedes-Benz com mais de 30 anos, tratado com o respeito reservado às coisas que já provaram o seu valor. E a frase diz tudo sobre a razão que levou, ontem, 44 automóveis clássicos a sair das garagens: fazer quilómetros, encontrar amigos e continuar a dar estrada a máquinas que já têm muita história para contar.
Há uma linguagem própria entre quem guarda um clássico. Reconhecem-se os modelos, discutem-se versões, reparam-se em pormenores que escapam a quem passa e, inevitavelmente, acaba por se falar de restauros, motores e histórias antigas.
Neste passeio, porém, há ainda outra coisa: muitos dos participantes já se conhecem de outras edições. Uns voltam pelo carro. Outros pelas pessoas. A maioria, provavelmente, pelas duas coisas.
Duas datas históricas
Foi assim que começou, ontem, o V Passeio de Clássicos Mercedes-Benz da Soc. Com. C. Santos. O tempo ajudou, a manhã estava luminosa e, pouco depois, os modelos históricos deixaram as instalações da empresa, na Maia-Aeroporto, para um percurso de cerca de 50 km.

O limite inicialmente definido era de 40 carros. Acabaram por ser 44, depois de a organização abrir uma exceção para quatro viaturas de colaboradores, que se inscreveram como qualquer outro participante.
O número é significativo, mas não tanto como a repetição, o regresso. Há quem tenha vindo a todas as (cinco) edições e quem já conte três ou quatro presenças. O passeio começa, assim, a ter uma dimensão que vai muito para além de uma saída de clássicos.
“Temos cinco ou seis pessoas que vieram a todas as edições, desde o primeiro dia”, conta ao Check-up Aquiles Pinto, diretor de comunicação da Soc. Com. C. Santos. “Depois, temos dezenas que já vieram a três ou quatro e que são quase totalistas dos nossos passeios”.
As inscrições ajudam a confirmar essa fidelidade. Poucas semanas depois de abertas, muitas das vagas já estavam preenchidas. Para uma empresa que não tem a organização de eventos como atividade principal, o entusiasmo é motivo de orgulho. “Para nós, que não somos profissionais de eventos, é motivo de orgulho. Significa que as pessoas se sentem bem connosco”, confidencia.
Relação de proximidade
Há, também, uma relação de proximidade que se nota na forma descontraída como o dia decorre. “Até admitem as pequenas falhas normais que possam existir, como se estivessem em casa”, acrescenta Aquiles Pinto. “Acho que alguma coisa estamos a fazer bem”.

E, ontem, havia ainda duas boas razões para fazer o passeio. A Mercedes-Benz celebra, em 2026, os 100 anos da união das marcas Mercedes e Benz. A história dessa união remonta a 28 e 29 de junho de 1926, quando foi fundada a Daimler-Benz AG, consolidando uma identidade que viria a tornar-se global.
Poucos meses depois, com o registo do seu emblema, a estrela Mercedes da Daimler-Motoren-Gesellschaft (DMG) surge envolta pela coroa de louros da Benz & Cie., integrando os nomes “Mercedes” e “Benz”. O símbolo que, então, se afirmava viria a tornar-se num dos mais reconhecidos e valiosos do mundo.
Do outro lado desta celebração está a própria Soc. Com. C. Santos, que assinala, em 2026, 80 anos de existência. O mundo e o setor automóvel mudaram profundamente desde 11 de janeiro de 1946, dia em que a empresa foi fundada na icónica Rua de Santa Catarina, no Porto.
Os tempos mudaram, os automóveis também, mas os objetivos da Soc. Com. C. Santos mantêm-se: olhar para o futuro, apostando nos melhores produtos, serviços e atendimento ao cliente.
São, portanto, duas histórias diferentes, com escalas distintas, mas que encontram na estrada um ponto de encontro perfeito. Uma marca automóvel com um século de identidade comum e uma empresa que há oito décadas acompanha a evolução do setor. E foi precisamente essa dupla efeméride que deu um significado especial à quinta edição do passeio.

Do clássico ao contemporâneo
A primeira paragem da caravana foi na Exponor, no autoClássico Porto. A caravana de clássicos da Mercedes-Benz chegou ao recinto como uma exposição em movimento, juntando várias décadas da história da marca.
A Soc. Com. C. Santos tinha ali dois espaços distintos. No Top Car, no Exclusive Top Car Sport, estavam quatro modelos que faziam a ponte entre diferentes gerações: o Mercedes-Benz SLS, já quase um clássico, ou, pelo menos, um pré-clássico, o Mercedes-AMG GT 63 Motorsport Collector’s Edition, a Classe E Station AMG e o CLE Coupé AMG.
Mais adiante, o passado ganhava outra dimensão. A exposição comemorativa dos 100 anos da Mercedes-Benz e dos 80 anos da Soc. Com. C. Santos reunia várias gerações dos Classe S e SL, outros modelos marcantes e uma cronologia dedicada à história da empresa.
Era possível percorrer décadas de automóveis num curto passeio pelo espaço. Carros que foram novidade, depois referência e, finalmente, clássicos. Ao lado deles, modelos atuais lembravam que a história não está acabada.
“Temos uma cronologia com alguns marcos da história da Soc. Com. C. Santos, que foi fundada em 1946, aqui no Porto, na Rua de Santa Catarina, uma rua icónica onde, durante muitos anos, estivemos instalados”, recorda o responsável.

A empresa chega aos 80 anos depois de uma longa transformação da indústria automóvel. A Mercedes-Benz chega ao centenário da união entre Mercedes e Benz com uma história ainda mais extensa.
A coincidência das duas datas esteve na origem da presença especial nesta edição de 2026 do autoClássico. “Fomos desafiados pela organização do AutoClássico para assinalar os 80 anos da Soc. Com. C. Santos e, sobretudo, os 100 anos da Mercedes-Benz. É, portanto, uma dupla celebração”, explica Aquiles Pinto.
Comunidade sobre rodas
A presença no autoClássico deu à caravana uma plateia maior. A organização esperava cerca de 60 mil visitantes ao longo do fim de semana, sobretudo do norte de Portugal e da Galiza, mas, também, de outras regiões.
Entre os pavilhões, os clássicos não passavam despercebidos. Havia sempre alguém a parar, a olhar, a reconhecer um modelo ou a comentar uma particularidade. O interesse não vinha apenas dos participantes. Depois, os motores voltaram a trabalhar e a caravana seguiu viagem.
O destino era a Quinta da Aveleda, em Penafiel. Depois da atmosfera do autoClássico, a tarde trouxe outro ritmo. Na Eira, um welcome drink recebeu os participantes e, mais tarde, o almoço no Salão do Roseiral prolongou o convívio num cenário de jardins e tranquilidade.

Os carros ficaram estacionados. As conversas, não. É uma das características destes encontros: quando a paixão pelos automóveis junta pessoas durante anos, os carros tornam-se, também, pretexto para amizades, reencontros e histórias que se prolongam muito para além do percurso.
A organização do passeio envolve várias equipas da Soc. Com. C. Santos — marketing, vendas, pós-venda e outras áreas. “Até a portaria tem o seu papel”, explica Aquiles Pinto, ajudando a gerir o espaço e a partida da caravana.
O resultado final parece simples. Juntar clássicos, escolher um percurso, encontrar um lugar bonito para almoçar. Mas a simplicidade é enganadora. Há uma comunidade para receber e uma relação para manter.
Convívio com história
“Esta quinta edição coincidiu com duas importantes efemérides: os 100 anos da Mercedes-Benz e os 80 anos da Soc. Com. C. Santos”, reforça Aquiles Pinto. “Foi um privilégio poder reunir apaixonados por automóveis clássicos num dia que celebrou a história, a inovação e o prazer de conduzir”, destaca o responsável.
A escolha do percurso ajudou a criar essa combinação entre automóveis, história e convívio. “A passagem pelo autoClássico Porto e a experiência enogastronómica na Quinta da Aveleda tornaram esta edição especialmente memorável”, acrescenta Aquiles Pinto.

Ao fim do dia, os clássicos começaram a regressar a casa. Um a um, foram deixando a Quinta da Aveleda e retomando o caminho para as suas garagens.
Voltaram para os lugares onde passam grande parte do ano, à espera da próxima oportunidade para fazer mais alguns quilómetros. Porque talvez seja esse o segredo dos clássicos: não foram feitos para ficar parados.
Precisam de estrada. Precisam de histórias. E, de vez em quando, precisam de se juntar a outros iguais para recordar que ainda há muito caminho pela frente.
Ontem, a Soc. Com. C. Santos deu-lhes precisamente isso: cerca de 50 km de estrada, uma celebração dupla e um dia inteiro para continuar a fazer aquilo de que mais gostam. Fazer quilómetros com o seu “velhote”.
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