powered by

Cinco histórias sobre o pós-venda nacional antes da Revolução dos Cravos by MEWA

No dia em que se celebra o 25 de Abril, embarcamos numa viagem ao passado. Através do testemunho de empresas que já compunham o pós-venda nacional, conta-se a história de um setor muito diferente.

Há um antes e um depois do dia 25 de Abril de 1974. Faz hoje 47 anos. O país mudou. E o pós-venda automóvel também. Abriu. Se recuarmos até à época anterior à Revolução dos Cravos, encontramos um mercado ainda fechado sobre si mesmo. Com sérias restrições em termos de transportes e de importações de produtos e marcas.

Neste artigo, fomos ouvir o importante testemunho de cinco nomes grandes do aftermarket nacional. Empresas que já por cá andavam antes da revolução. E que por cá continuam, para poder contar a sua história. Retratos de um mundo a preto e branco, onde palavras como “globalização” e “digitalização” ainda não vingavam.

Bolas Conselho de Administração
Bolas 2021

Bolas: “No pós-25 de Abril tínhamos muitas restrições às importações”
 

Um mercado mais pequeno e circunscrito. Ao olhar para o passado, Guilherme Bolas, presidente do Conselho de Administração da Bolas, do qual fazem parte, também, os filhos Elizabete Bolas e Rui Bolas, recorda como tanto era diferente no pré-25 de Abril de 1974. A empresa foi constituída a 29 de dezembro de 1964, uma década antes da Revolução dos Cravos, mas começaria a laborar no início do ano seguinte.

“A empresa iniciou a sua atividade em janeiro de 1965, em Évora, dedicando-se, na altura, à venda direta ao consumidor final e abrangendo apenas as regiões do Alentejo e Algarve. Tinha, portanto, um mercado mais diminuto e mais pulverizado”, conta.

“À medida que fomos expandindo o nosso portefólio de produtos, com visitas frequentes às maiores feiras internacionais do setor, foi-se delineando uma nova filosofia comercial, que ditou a expansão das nossas atividades a todo o território nacional e o direcionamento das vendas para revendedores especializados nas diversas áreas de atividade. Desde 1980, esta tem sido a nossa política comercial, opção reconhecida e valorizada pelos nossos clientes em Portugal e, agora, também nos PALOP”, diz.

Guilherme Bolas revela ao Check-up que as principais dificuldades da época, “em especial no pós-25 de Abril, prendiam-se com toda a burocracia e restrições às importações, aliadas, como é natural, às dores de crescimento”, adianta. “A partir de Évora, montar toda uma estrutura de importação e distribuição, a nível nacional, não foi tarefa fácil”, sublinha.

Com o tempo, a Bolas começou a ganhar dimensão. “Progressivamente, abrimos delegações. Primeiro, na região norte e, posteriormente, na zona de Lisboa. O transporte de mercadorias estava mais dificultado, na altura, e sentíamos necessidade de reforçar a nossa presença nas zonas do país onde, de facto, a indústria estava localizada, bem como de agilizar entregas e serviço pós-venda”, recorda Guilherme Bolas.

Bolas 1965
Primeiras instalações da Bolas, em janeiro de 1965

“Hoje, toda a logística está mais facilitada, quer a nível da importação, quer a nível da distribuição. Existem, contudo, novos desafios, nomeadamente a nível de concorrência, que, como é natural, também se intensificou ao longo dos tempos”, acrescenta ainda o presidente do Conselho de Administração da Bolas.

Diferenças e semelhanças

Embora o mercado português seja, naturalmente pequeno, na altura, era mais fechado. Existiam menos players e menor capacidade de investimento”, conta. “Primeiro, com a entrada na EU e, mais recentemente, com o advento da Internet e do digital, o mercado foi-se tornando mais global”, explica Guilherme Bolas.

“Gerimos o nosso portefólio de produtos através de acordos de representação exclusiva e, na medida do possível, as nossas representadas protegem-nos. Mas não somos imunes a ingerências territoriais nem a guerras de preços. Um ponto a nosso favor é a confiança que temos sabido gerar, quer a nível de fornecedores, quer de clientes e parceiros em geral, bem como a transparência que, desde sempre, imprimimos à nossa política comercial. São valores que pretendemos manter para o futuro”, afirma.

 Segundo o responsável, importa ter uma mente aberta em relação ao negócio. E não só. À evolução, no sentido mais lato do termo. “Costuma dizer-se que o mundo é composto de mudança. E ela acontece cada vez mais rapidamente. Seja a nível de produtos, seja a nível de processos. Da nossa parte, procuramos sempre estar abertos à mudança. O importante é sabermos adaptar-nos, sem perder os nossos princípios orientadores: excelência, proatividade e foco no cliente”, vaticina Guilherme Bolas.

Bombóleo Domingos Marques
Bombóleo logo

Grupo Bombóleo: “Imutáveis são apenas os princípios humanos que nos regem”

Para contar uma história como a do Grupo Bombóleo e o período vivido nesta data especial, não haverá ninguém melhor do que Domingos Marques, fundador e sócio-gerente da empresa nascida em 1959. Alguém que, aos 81 anos, continua a fazer parte da vida e da evolução do grupo. “Se quisermos falar do passado, temos de recuar até à data do nascimento da Bombóleo. Estávamos em 1959, os laboratórios Diesel eram poucos e com muitas limitações técnicas e financeiras”, relata ao Check-up.

“Os principais eram a Bosch e a Conde Barão, em Lisboa. E, no Porto, a empresa Aniceto e Silva, com a Bosch, e a Auto Lux, com a C.A.V/Lucas. A Bosch era a marca principal, com cerca de 70% do mercado. Hoje, tudo mudou, 80% das empresas desapareceram”, lamenta Domingos Marques.

“A Bombóleo teve, sem dúvida, uma visão de que era preciso fazer algo para que este mercado continuasse ativo. Assim, em primeiro lugar, montou uma escola técnica privada, onde todos tinham acesso à aprendizagem e atualização técnica. Segundo, descentralizou os laboratórios, que, no princípio, só estavam nas grandes cidades”, confidencia o fundador, sem esconder as dificuldades do percurso.

Bombóleo Laboratório da Cruz Vermelha
Domingos Marques na oficina e laboratório Diesel (Rua da Cruz Vermelha)

Mas que também não lhes atribui grande relevância. “Dificuldades, todos temos. As vantagens são só para aqueles que acreditam num projeto com presente e futuro. E nós, acreditamos! Essa é a razão porque não temos dúvidas de que somos reconhecidos com credibilidade em todo o mundo. É preciso ser ambicioso e ter visão”, afirma.

Do convencional ao eletrónico

A atividade da Bombóleo era muito distinta da atual. “Tudo mudou em termos técnicos. Passámos do convencional ao semi-eletrónico, para, nos dias de hoje, estarmos no eletrónico, a que chamamos de common-rail. Ou seja, a pressão de injeção era de 150 bar. Hoje, é de 2.500 bar e temos motores quase limpos”, explica.

Quanto às empresas, a mudança também é total. “No passado, era o patrão. Hoje, são os empresários e diretores, com formação e cultura bem diferentes”, conta. “Hoje, falamos de empresas onde existem condições de higiene, espaços limpos e equipamento atualizado. Também os serviços são, atualmente, muito mais completos. Como se sabe, temos a atuação das redes de serviços, onde existe uma assistência completa ao automóvel”, acrescenta.

Pontos inalteráveis até aos dias de hoje, na sua opinião, “são difíceis de encontrar, porque, efetivamente, tudo mudou”, diz. “Desde a cultura das empresas aos relacionamentos interpessoais, passando pela evolução tecnológica dos motores de combustão”, frisa.

“Creio que imutáveis são apenas os princípios humanos que regem a nossa atuação. No nosso caso, que mantemos relacionamentos comerciais com clientes de toda uma vida, e muitos transformaram-se em relacionamentos pessoais, falamos, inevitavelmente, de princípios basilares, como a confiança, a honestidade e a capacidade de resposta e de serviço com que podem contar”, salienta Domingos Marques.

Rodrigues Tyres 2021
Rodrigues Tyres stock

Grupo Rodrigues & Filhos: “A palavra dada valia muito mais em 1974”
 

“O grupo já tinha uma dinâmica muito relevante no início dos anos 70. Tanto nos pneus, como nos combustíveis. Era uma empresa muito importante no contexto nacional”, começa por revelar ao Check-up José Saraiva, diretor comercial da Rodrigues Tyres, conceito que integra, tal como as empresas Rodrigues & Filhos (pneus) e General Serv (combustíveis), o Grupo Rodrigues & Filhos.

“Sobretudo no setor dos pneus, o Grupo Rodrigues & Filhos foi uma ´escola’ onde se iniciaram e aprenderam, com o fundador, Joaquim Rodrigues, uma grande parte dos atuais empresários de pneus do país. É claro que havia muitas dificuldades, porque as vias de comunicação eram fracas e o nível académico dos potenciais colaboradores era muito baixo, mas havia, talvez, uma vontade e um espírito de sacrifício que falta atualmente a grande parte da classe trabalhadora”, reconhece ainda José Saraiva.

Uma questão de ética

Com uma história tão longa, que começou a ser escrita em 1955, através da empresa Rodrigues & Irmão, o grupo consegue ter uma perspetiva ampla sobre a evolução do pós-venda nacional nos setores onde atua.

“Em 47 anos, as coisas mudaram muitíssimo, como é fácil constatar. Atualmente, as mutações são constantes e passa-se tudo muito rápido. A quantidade de operadores multiplicou-se por 10 ou mais e a concorrência é uma realidade diferente de 1974”, explica o diretor comercial da Rodrigues Tyres.

Os exemplos são muitos. “O fenómeno da digitalização, que se nota mais nos últimos 10 a 15 anos, veio, também, ajudar a transformar a realidade do mercado”, acrescenta.

Joaquim Rodrigues fundador
Joaquim Rodrigues, fundador do Grupo Rodrigues & Filhos

“Mas talvez a grande diferença seja a forma menos ética com que, por vezes, se desenvolvem os negócios. A palavra dada valia muito mais em 1974 do que, infelizmente, vale hoje em dia”, lamenta.

Pontos comuns entre o passado e o presente? “São poucos, mas, obviamente, existem. Um ponto que me parece inquestionável é que, quem durante anos vai tomando o rumo certo, com certeza colherá frutos mais tarde ou mais cedo. Também me parece fundamental ter quadros competentes e conservá-los, porque, tal como em 1974, e apesar de todas as tecnologias disponíveis, hoje continuam a ser as pessoas a fazer a diferença”, conclui.


Banner animado Mewa

Romafe administração
Check-up Media Romafe SKF

Romafe: “Na época, os rolamentos ainda não eram o principal foco”

Ao olhar para a atual dimensão da Romafe, é difícil acreditar que tudo começou num pequeno apartamento na cidade do Porto. Uma visão e um esforço do fundador, Alfredo Pinto França, em 1945, ainda o mundo vivia o último ano da Segunda Guerra Mundial.

Uma história longínqua e riquíssima de uma empresa que apanha o 25 de Abril de 1974 já consolidada e sob a liderança de Fernando Figueiredo França, como relata Mónica França, que partilha, com José Vaz (à esquerda na imagem) e José Carvalho (à direita), a administração da Romafe.

“No período que antecedeu o 25 de Abril, do portefólio da Romafe constava uma gama muito abrangente e diversificada de artigos com aplicação no setor industrial. A especialização em rolamentos ainda não era o principal foco da empresa. As instalações eram pequenas, contando apenas com seis funcionários”, conta ao Check-up.

Alfredo Pinto França
Alfredo Pinto França, fundador da Romafe
Expansão a nível nacional

Antes do 25 de Abril, as vendas da Romafe eram, maioritariamente, feitas a nível local. Após o 25 de Abril de 1974, com o alargamento das vias de comunicação, juntamente com a entrada de Portugal na União Europeia, em 1985, com a chegada de novos capitais, dá-se um novo impulso no setor industrial”, recorda.

E acrescenta: “As posteriores privatizações e a reativação do mercado de capitais, também ajudaram a mudar o panorama da indústria nacional. Deste modo, a Romafe começou a expandir-se a nível nacional”.

Os pilares da sua fundação continuam intactos. “O carácter, a confiança e a dedicação para com os nossos clientes foram valores que se mantiveram constantes até aos dias de hoje”, sublinha Mónica França.

“No que toca ao setor, sempre houve necessidade e procura por rolamentos, sendo este um dos fatores que nos levou à especialização nos mesmos. Hoje, podemos afirmar que somos uma empresa inovadora e com experiência de vários anos, que investimos no conhecimento como garantia de qualidade, rigor, eficiência e profissionalismo”, acrescenta a administradora da empresa.

S. José Pneus administradores
Check-up Media S. José Pneus new warehouse

S. José Pneus: “Depois de 1974 entraram mais marcas de pneus”
 

Em abril de 1974, a empresa acabava de fazer oito anos e a sua atividade principal era a recauchutagem, ao mesmo tempo que também fazia assistência técnica aos seus clientes em Cantanhede”, recorda Luís Aniceto (à direita na imagem), administrador da S. José Pneus, ao Check-up.

“Também fazia a recolha de pneus de camião, para, depois, recauchutá-los nas grandes transportadoras do distrito de Coimbra, tendo como seus clientes principais aquela que era, na época, a maior empresa de transportes do país, os Transportes Jaime Dias, Sucs, Lda., em Coimbra, e ainda os Transportes Manuel Ferreira Rama, que ainda existem”, acrescenta ainda o responsável.

Na memória, ficam os nomes de quem fez a história da empresa, fundada a 28 de março de 1966. “O fundador, o senhor José Abrantes Aniceto, era uma das pessoas do país com mais conhecimentos práticos de pneus, já que, até fundar a sua própria empresa, trabalhava numa outra recauchutagem local, a Recauchutagem Totta, que depois se chamou Recauchutagem Marialva, tendo sido um dos elementos que participou na fabricação de pneus novos, provavelmente os primeiros que se fabricaram em Portugal, em 1943/1944”, revela Luís Aniceto.

“A zona de Cantanhede e Mira era grande produtora de cereais leguminosos, com grandes comerciantes/armazenistas, que tinham necessidade de fazer chegar os seus produtos a Lisboa. Mas as carências de pneus eram grandes, de tal modo que a necessidade aguçava o engenho. E com a ajuda de um engenheiro químico suíço e do seu filho, refugiados da guerra, fabricaram pneus para as camionetas daqueles comerciantes”, conta.

Aparecimento dos importadores

Luís Aniceto recorda um mercado “completamente diferente do atual”, quando recua a 1974. “Tanto na comercialização de pneus, como na recauchutagem”, diz.

“As principais marcas de pneus eram a Mabor, a Firestone e a Michelin, que tinham os seus agentes, quase sempre a trabalhar com apenas uma ou duas marcas, em pequena quantidade, muito protegidos e com áreas de atuação de quase exclusividade”, acrescenta.

“Posteriormente, esses agentes tinham os seus sub-agentes, estes mais disseminados e mais perto dos consumidores”, explica o administrador da S. José Pneus ao Check-up.

Recauchutagem S. José
“Confiança absoluta”. O lema criado pelo fundador perdura no tempo

Depois de 1974, “houve a entrada no país de muito mais marcas de pneus, com o aparecimento dos importadores, normalmente monomarca, tendo estas aumentado fortemente o número de agentes que nomearam e a quem passaram a fornecer, passando a haver casas de pneus que trabalhavam quase todas as marcas do mercado, com prejuízo da sua capacidade negocial com os fornecedores”, conta.

Para contrariar essa situação, “assistiu-se à criação de centrais de compra, em que os retalhistas agrupados potenciaram melhores condições na compra, a fim de melhor fazer face ao aumento de competitividade que o mercado exigia”, adianta. E sublinha: “Nos últimos anos, o paradigma foi alterado profundamente, com a entrada dos distribuidores. A S. José Pneus foi o primeiro distribuidor em Portugal com uma filosofia de “distribuição multimarca”, em que potenciava o fornecimento à casa de pneus de todas as marcas a um preço muito competitivo, em que o retalhista não estava dependente de objetivos de compra para conseguir comprar a bom preço”.

Segundo conta, “a vantagem era que, quando comprava, era já a um preço líquido final, não ficando dependente de condições, que eram subjetivas, e que, muitas vezes, não eram atingidos os objetivos de final de ano. Além dessa vantagem, não precisava de se ‘encher’ com enormes stocks, que se tornavam ineficazes face à enorme variedade de medidas e referências de homologação para cada viatura”.

No último ano, com o aparecimento da pandemia, “a função do distribuidor saiu reforçada, uma vez que foi a capacidade de stock e de entrega dos distribuidores que permitiu um fornecimento das necessidades do mercado, sem quebras, quando as fábricas das marcas pararam e/ou reduziram a sua produção”, acrescenta Luís Aniceto.

Olhando para o passado, o administrador da S. José Pneus não esconde o orgulho: “Na nossa empresa, o que não mudou foi o foco na satisfação do cliente, a ética e o profissionalismo com que encaramos a nossa atividade. A tentativa permanente em sermos melhores, para poder continuar a merecer o lema que o fundador da empresa criou, logo no seu início: ‘Confiança absoluta’”.


Banner animado Mewa

artigos relacionados

Últimas

Pneus

Ligeiros

Internacional