As entrevistas com os responsáveis da MF Pinto costumam ter como protagonistas Jorge Pinto e Paulo Pinto, os dois irmãos que, há mais de duas décadas, lideram os destinos da empresa de Sintra, especializada em turbocompressores e sistemas Diesel.
Desta vez, porém, o Check-up teve outro interlocutor na primeira entrevista do ano com a MF Pinto. A dar a cara pela empresa esteve Bruno Fonseca, novo responsável da área comercial, chamado a fazer o balanço de 2025 e a traçar as prioridades estratégicas para o presente ano.
Com 38 anos e muita experiência no pós-venda automóvel independente, Bruno Fonseca conhece bem o ritmo do setor. Assume que já foi mais impulsivo, reconhece que o tempo lhe trouxe maturidade e não esconde a exigência que coloca a si próprio e à equipa. No centro da sua visão está uma ideia simples: vender exige convicção. E esta constrói-se com conhecimento sólido.
Com 2025 fechado, que balanço faz do ano para a MF Pinto e que fatores mais contribuíram para esse resultado?
Foi um ano exigente, mas positivo. Num contexto ainda instável, conseguimos consolidar posições e reforçar a nossa presença no mercado. O que mais contribuiu para isso foi a consistência da equipa e a aposta clara na componente técnica. A MF Pinto não compete apenas por preço, compete por conhecimento e capacidade de resposta.
A entrada da Bosch no portefólio, no ano anterior, revelou-se um ponto de viragem. Como é que essa aposta se refletiu nos resultados e na relação com o mercado ao longo de 2025?
A Bosch foi, sem dúvida, um passo muito importante. Trouxe-nos maior robustez de portefólio e reforçou a nossa credibilidade junto das oficinas. É uma marca que abre portas, que posiciona a empresa noutro patamar e que também nos permite entrar em segmentos que estão a evoluir, incluindo áreas mais ligadas à eletrificação.
A integração da Schaeffler, após ter sido adquirida por parte da Vitesco, reforçou a vertente tecnológica da MF Pinto. Que valor acrescentado trouxe esta parceria para os clientes portugueses?
Por um lado, reforça, claramente, a componente tecnológica do nosso portefólio. Por outro, a abertura da distribuição a mais operadores diluiu alguma exclusividade que existia.
Estamos a falar de um nicho muito específico. O Diesel exige conhecimento, equipamentos e acompanhamento técnico. Quando a distribuição se alarga a quem não tem essa especialização, o mercado pode perder qualidade de serviço.
Com a chegada da Delphi/Phinia, sente que o portefólio atingiu uma maturidade diferente, mais alinhada com a sofisticação atual dos sistemas de motorização?
Sim, claramente. Hoje, temos um portefólio mais equilibrado e alinhado com a complexidade dos sistemas atuais. As motorizações estão cada vez mais sofisticadas e o distribuidor tem de acompanhar essa evolução. Não basta ter o produto, é preciso saber apoiá-lo tecnicamente.





O aftermarket vive uma fase de forte transformação. Como caracteriza o estado do mercado de pós-venda em Portugal?
É um mercado mais exigente e mais técnico. As oficinas estão pressionadas, os clientes finais também e os erros pagam-se caro. O improviso tem cada vez menos espaço no mercado. Quem não estiver preparado tecnicamente, vai sentir muitas dificuldades.
A eletrificação continua a gerar debate. Para a MF Pinto, o veículo elétrico é, sobretudo, um desafio ao modelo tradicional ou uma oportunidade para evoluir tecnicamente? Como lê este pequeno recuo europeu?
A eletrificação é uma tendência, mas ainda há muito entusiasmo à volta do tema. O carro elétrico funciona muito bem para quem o conduz, mas o parque circulante continua maioritariamente térmico. Essa é a verdade.
Há um ajustamento europeu, que demonstra que a transição não é tão linear como se previa. Para nós, é importante acompanhar, mas sem abandonar o nosso core business. O Diesel ainda terá um papel relevante durante muitos anos.
Que mudanças mais evidentes identificou no comportamento das oficinas e dos profissionais ao longo de 2025?
Estão mais informados e mais exigentes. Já não procuram apenas preço, procuram solução. Muitas vezes, um problema resolve-se com uma simples codificação de injetor, mas quem não tem equipamento ou conhecimento acaba por substituir peças desnecessariamente. É aqui que se percebe a diferença entre vender produto e prestar serviço técnico.
O novo portal B2B marcou um passo importante na digitalização da empresa. Que impacto real teve no volume de negócios e na eficiência operacional?
Trouxe eficiência. Facilita muito o processo de encomenda, reduz erros e permite maior autonomia às oficinas. A digitalização é importante, mas não substitui a relação humana: complementa-a.
Num setor cada vez mais digital, como se equilibra tecnologia avançada com fator humano, que continua a ser uma imagem de marca da MF Pinto?
A tecnologia é uma ferramenta. O fator humano é a base. A equipa de vendas fala diariamente comigo. Existe proximidade, apoio e espírito de entreajuda. Quando alguém está menos bem, os outros elementos sentem e apoiam. Esse lado humano não pode desaparecer.
O contexto internacional manteve-se instável em 2025. De que forma essa realidade influenciou a gestão de stocks, logística e relações com fornecedores?
Obriga-nos a ser mais prudentes e estratégicos. A gestão de stock tornou-se mais crítica e as relações com fornecedores exigem maior planeamento. Hoje, antecipar é essencial.
Olhando para 2026, quais são as principais prioridades estratégicas da MF Pinto?
Consolidar o que foi feito, reforçar a especialização e continuar a investir em conhecimento. Não queremos ser tudo para todos. Queremos ser muito bons naquilo que fazemos.
Há novas áreas, tecnologias ou gamas que façam sentido explorar em 2026 para reforçar a diferenciação da empresa?
Explorar, sim, mas sempre dentro da nossa lógica de especialização. Não faz sentido entrar em áreas que não dominamos. Tal como não entramos no nicho das embraiagens, que é o core business de outros, também defendemos que o Diesel deve ser tratado por quem tem competência técnica.
Ao longo do seu percurso profissional, que princípio acabou por marcar a sua forma de trabalhar e liderar?
Aprendi uma coisa de forma muito clara. Todos somos consumidores de alguma coisa. A grande diferença está aqui: temos de ser compradores do produto que vendemos.
Não é possível transmitir credibilidade ao cliente se não acreditarmos verdadeiramente naquilo que estamos a vender. Eu aprendi isso da forma mais dura, na prática. No final do dia, é isso que faz a diferença: a convicção.