“16 chineses entram num bar”

Dizem que “quando sopram ventos de mudança, uns constroem muros, outros constroem moinhos”.

O provérbio é chinês, claro, e nunca fez tanto sentido como agora, quando 16 marcas provenientes da China decidem entrar no bar aberto que é, hoje, o mercado automóvel. Entram de sorriso confiante, discretas mas decididas, pedem uma bebida e sentam-se à mesa com os europeus, que ainda olham para o copo meio cheio, meio vazio.

BYD, XPENG, Leapmotor, MG e muitos outros nomes que, há pouco, soavam exóticos e que, hoje, disputam espaço nos balcões da mobilidade. Trouxeram baterias em vez de barris, algoritmos por decifrar e uma serenidade de quem sabe que o jogo está apenas a começar.

Para o aftermarket nacional, o bar está mais animado e, também, mais exigente. Os chineses não vieram só “beber”. Vieram servir. Têm software próprio, peças que ainda não estão nos catálogos e uma lógica que desmonta a nossa confortável rotina de esperar, substituir e brindar à estabilidade. Agora, o cocktail é outro: tecnologia fechada, informação técnica racionada e uma pitada generosa de mandarim digital.

Mas há bons copos a beber. A concorrência obriga o setor a mexer o shaker: mais formação, novas redes, diagnósticos remotos, parcerias improváveis. Onde há risco, há oportunidade. E quem souber equilibrar os ingredientes, pode sair deste bar com a casa cheia.

“Para o aftermarket nacional, o bar está mais animado e mais exigente. Os chineses não vieram só ‘beber’. Vieram servir. Têm software próprio, peças que ainda não estão nos catálogos e uma lógica que desmonta a nossa confortável rotina de esperar, substituir e brindar à estabilidade"

Confesso que, há 30 anos, não imaginava este momento. Nos anos 90, quando comecei a escrever sobre automóveis na extinta revista AutoMotor, encontrei-os pela primeira vez. No fim de um test drive, numa apresentação internacional de um novo modelo europeu, uns “jornalistas” chineses (assim se intitulavam) perguntavam-me, de bloco na mão:

— Trava bem?

— Sim, sim, muito bem — respondi, nervoso.

Eles apontavam tudo.

— E curva bem?

— A curvar adorna um pouco — arrisquei, quase a derrapar, para não parecer demasiado elogioso.

Mais notas.

Na altura, achei cómico. Hoje, quase profético. Enquanto nós dávamos opiniões, eles recolhiam dados. E o que pareciam simples apontamentos de estudantes tornaram-se, décadas depois, receitas de sucesso.

Talvez eu tenha atrasado um bocadinho a invasão com as minhas respostas desajeitadas e impreparadas, mas o certo é que eles voltaram — mais preparados, mais eficientes e com muita vontade de servir a próxima rodada.

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