Skip to content

“O meu maior problema mecânico sempre foi apertar os parafusos”, diz Elisabete Jacinto

A experiente piloto aprendeu a resolver muitos dos problemas mecânicos com que se foi deparando durante as provas. Nem que tivesse de recorrer a uma cábula.
Check-up Media LIQUI MOLY Oficina Vip Elisabete Jacinto

Elisabete Jacinto dispensa apresentações. Aos 57 anos, tem já uma carreira com mais de 30 anos como piloto profissional. Foi a primeira portuguesa a participar na lendária prova Paris-Dakar, em duas rodas. E não há veículo que não conduza, como o prova a vitória, há dois anos, no Rali Africa Eco Race, ao volante do camião MAN TGS, com uns impressionantes 830 cv.

Entretanto, surgiu a pandemia de covid-19 e o mundo mudou. Mas Elisabete Jacinto continuou a fazer aquilo que melhor sabe. E ainda teve tempo para realizar uma visita à Oficina Vip. Como se habitua uma aventureira a confinamentos desta natureza? Travando, por exemplo.

“Esta pandemia teve o mérito de nos relembrar da nossa fragilidade. Isso fez-nos repensar muitos aspetos da nossa vida, apreciar o que tínhamos e aprender a valorizar o que, verdadeiramente, deve ser valorizado. O confinamento concedeu-me uma pausa na correria com que fui vivendo todos estes anos”, adianta.

“Era excessiva, mas era a única forma de conseguir concretizar os meus objetivos. Assim, a pandemia permitiu-me acalmar um pouco, respirar fundo e fazer um balanço. Concluí, mais uma vez, que a vida existe para ser vivida e, por isso, aproveitei para aprender outras coisas. Fiz uma formação em ‘Modo de Produção Biológico’, fiz uma pós-graduação em ‘Psicologia aplicada a contextos de trabalho’ e mudei de casa. Deixei a cidade e vim viver para o campo. O tempo passou depressa”, acrescenta Elisabete Jacinto.

Regresso à normalidade

O regresso à normalidade tem sido feito “pouco a pouco”. Como conta a piloto, “parece que a vida vai retomando a sua normalidade”. Por outras palavras, “vão surgindo trabalhos giros, algumas conferências e estou a terminar mais um livro de banda desenhada. Entretanto, decidi lançar-me num novo desafio e estou a aprender a jogar golfe”, revela.

Parte dessa normalidade passa, claro está, pela sua carreira. Prova disso, foi a sua participação recente na terceira edição do Portugal EcoRally, competição portuguesa do Campeonato Europeu de Regularidade Elétrica. Uma “mudança” para veículos de zero emissões? “Não se pode afirmar que seja uma passagem”, começa por frisar a piloto à Oficina Vip.

Check-up Media LIQUI MOLY Oficina Vip Elisabete Jacinte2

“Tratou-se apenas de uma experiência, embora deva dizer que não me importava que fosse realmente uma passagem… mas gostava que o fosse nas provas de todo-o-terreno. Se tivesse oportunidade de fazer ralis de todo-o-terreno com um veículo elétrico, fá-lo-ia”, garante.

Sobre a sua participação nesta competição, guarda as melhores memórias. “Foi uma estreia em provas de regularidade e, também, no que se refere aos veículos elétricos, pois nunca tinha experimentado nenhum. Assim, gostei de ter tido a oportunidade de participar no Portugal EcoRally com uma Peugeot e-Partner e com a Magda Ferreira como navegadora”, afirma.

“Ela é uma boa navegadora e tem muita experiência. Ajudou-me a perceber como agir neste tipo de provas, que são muito específicas. Contudo, a nossa atuação foi posta em causa logo à partida, pois os carregadores dispensados pela organização não se adaptavam a este tipo de veículo, pelo que não tivemos autonomia necessária para fazer todo o percurso. Foi pena”, lamenta.

Na carreira de Elisabete Jacinto, de resto, não faltam momentos inesquecíveis. “Orgulho-me de ter conseguido fazer o que, teoricamente, seria impossível de conseguir. Refiro-me não só ao projeto desportivo com a moto, mas, também, com o camião. Os objetivos eram muito ambiciosos e as nossas condições muito limitadas, em todos os níveis. Ter sucesso nestas duas áreas implicou muito trabalho, muito empenho e superação. Foram anos de dedicação absoluta a deixar todo o resto para trás. Do trabalho realizado, fica o exemplo e a prova de que não há impossíveis”, conta a piloto à Oficina Vip.

Entre o deserto e a cidade

Encontrará alguém habituado a “desbravar” terrenos agressivos, como o deserto, por exemplo, semelhanças com a condução em cidade? “Os princípios básicos são os mesmos, principalmente no que se refere ao controlo do veículo. Contudo, há uma diferença significativa na atitude do condutor. Na cidade, conduzimos num espaço partilhado. A nossa segurança e a dos outros é um dos principais objetivos. Conduzimos respeitando as regras do Código da Estrada (CE), de modo a proporcionar a fluidez do trânsito. Tentamos preservar ao máximo a mecânica do veículo que conduzimos e economizar combustível”, refere.

Check-up Media LIQUI MOLY Oficina Vip Elisabete Jacinto3

“No deserto faz-se uma condução desportiva. Ou seja, as capacidades do piloto e do veículo são levadas ao limite.  Na maior parte do tempo, estamos sós, entregues à nossa capacidade de conduzir o melhor possível. O objetivo é, acima de tudo, andar rápido… embora no todo-o-terreno, andar rápido possa significar andar a uns meros 20 km/h”, acrescenta.

“Há também a necessidade de se fazer uma condução segura, embora, em competição, essa segurança passe por um domínio muito bom da técnica de condução, de um bom conhecimento do veículo que se conduz e da utilização de elementos de proteção, tais como o capacete e arco de segurança, entre outros”, alerta.

” Em suma, conduz-se rápido, mas, também, com segurança”, explica Elisabete Jacinto, que, no seu quotidiano, opta por um smart, para circular nas cidades e por um Citroën Aircross, sempre que as distâncias são mais maiores.

Ao Check-up, garante que é uma “condutora tranquila, que cumpre o CE e que tenta ter sempre uma condução segura”. E concretiza: “Não sou do género de andar a passar repreensões sonoras aos outros condutores e tento antecipar a movimentação dos outros veículos na estrada. Esta é uma aprendizagem que se faz quando se conduz moto e se aplica perfeitamente ao volante do automóvel”.

Cábula mecânica

Hoje em dia, Elisabete Jacinto tem uma profunda experiência em mecânica, resultado de muitos quilómetros em competição, nas condições mais adversas. Mas terá sido sempre assim? “Todos temos ideia de que as mulheres, em termos gerais, não têm uma boa relação com a mecânica. Eu não sou exceção. Quando comecei a fazer provas de moto no deserto, preocupava-me em saber resolver os problemas que me surgissem”, revela.

“Assim, passei algum tempo com o mecânico a tentar perceber que tipo de avarias poderia ter e como as poderia resolver. Ia fazendo uma cábula que levava sempre no bolso. Um dia, num dos ralis, um piloto teve um problema. O motor desligou-se e a moto não andava. Eu fiz um figurão com a minha cábula a dar dicas e propostas de resolução… e conseguimos pôr a moto a funcionar!”, conta.

“Com o camião, é um bocadinho diferente”, admite Elisabete Jacinto. “Porquê? Temos de aprender mecânica quando tiramos a carta de condução. Depois, na oficina, a ver o Marco a trabalhar, fui aprendendo mais qualquer coisa, mas a dificuldade estava sempre em desapertar os parafusos!”, confidencia.

“De qualquer forma, apesar de, em termos práticos, ter algumas dificuldades, em termos teóricos, consegui, em conjunto com o mecânico, o Marco, criar projetos de alterações do camião muito bem sucedidos. Fizemos desenvolvimentos muito giros para o tornar mais competitivo”, afirma a piloto portuguesa.

Secção patrocinada por empresas que apoiam jornalismo de qualidade

 ÚLTIMAS 

Translate »